Dizem que quando você chega na estação certa, entende porque perdeu o trem tantas vezes. Talvez não tenha sido por causa das chaves esquecidas sobre a mesa, ou por causa da TV que deixastes ligada ou, quem sabe, pelo telefone que tocou antes de sair. Talvez não tenha sido por causa do táxi que não parou, do semáforo que queimou, ou da moto que avançou a preferencial.
E se a vida for, na verdade, um grande talvez? Talvez dê certo, talvez não, talvez esse seja o caminho certo, talvez seja o outro, talvez essa seja a pessoa ideal, talvez não. Mas, será que não é justamente esse talvez que move cada um de nós? Talvez não seja esse espaço vazio, essa ausência de certezas que faz a vida realmente valer a pena?
Talvez o grande segredo da vida seja viver sem saber as respostas que tanto buscamos, que tanto queremos, que tanto sonhamos, afinal, que graça a vida teria se soubéssemos as respostas para tudo? Que graça o espetáculo teria se soubéssemos o que acontece no final?
Vivemos numa busca incessante para saber as respostas de tudo porque o desconhecido nos também nos assusta, e o talvez ainda é uma incógnita que não conseguimos decifrar, é como uma música que desperta sentimentos que nunca sentimentos ou trazem lembranças que nunca vivemos. Esse talvez é o medo do desconhecido que tanto nos aflinge e nos amedronta, é o medo do futuro incerto e inevitável, é o medo de seguir em frente sem saber o que iremos encontrar na próxima curva.
Mas, afinal, não é o medo que nos move? Não é o medo que, ironicamente, nos faz criar a coragem necessária para seguir, para enfrentar, para agir?
Não permita que a recordação de um passado ruim te faça ter medo de um futuro incerto, afinal, viver é diferente de estar vivo, é diferente de apenas existir, há uma reciprocidade na vida que fascina porque o bem que cultivamos sempre encontra um meio de voltar.
É como se estivéssemos perdidos em alto mar, sozinhos, sem a perspectiva de uma terra à vista, vivendo apenas com as incertezas do que iremos encontrar. Eu sei o quão difícil é olhar para o futuro e se deparar com um espaço vazio, uma tela em branco pronta para ser colorida ou um recipiente esperando para ser preenchido. É como se estivéssemos no ponto Nemo da Terra, no lugar mais distante, mais inóspito e, ao mesmo tempo, mais sereno que existe, esperando apenas que um vento suave nos leve para qualquer direção.
Então aprenda a viver sem se preocupar com o futuro porque, talvez, um dia deixaremos de estar à deriva na imensidão desse mar, talvez um dia deixaremos de nos importar com coisas tão pequenas, tão supérfluas que não merecem nossa atenção como a roupa amassada, o cabelo bagunçado ou o quadro torto na parede. Talvez um dia, simplesmente, deixaremos fluir, deixaremos que aconteça sem pressa, sem medo o que o destino permitir.
Talvez um dia chegaremos onde sempre sonhamos estar e teremos feito tudo o que desejávamos fazer, talvez um dia o medo do futuro se torne apenas uma lembrança que gostamos de recordar em dias frios, calmos e solitários, talvez um dia as boas lembranças serão as nossas melhores companhias porque, um dia, depois de tudo isso, parafraseando Caio, seremos apenas um retrato na estante de alguém, depois, nem isso.
"Depois que vivo é que sei que vivi. Na hora o viver me escapa. Sou uma lembrança de mim mesma. Eu me escapo de mim mesma."
- Clarice Lispector

Nenhum comentário:
Postar um comentário