09/01/24

Coloquei meus sentimentos no papel


        Mais uma madrugada em claro, acordado, sozinho, minha únicas companhias são o frio e a chuva que cai lá fora, uma caneta e uma velha agenda em mãos. Nessas linhas eu me perco, me entrego, me revelo, me descrevo por inteiro, sem medo, mas esse não sou eu - porque essas linhas (ainda) não me têm.
...
        Hoje, depois de muito desacreditar, percebi que escrever se tornou uma terapia. É difícil falar do que sinto porque às vezes nem mesmo eu consigo explicar ou tenho palavras para tal. É difícil me abrir com as pessoas e desabafar quando o medo de ser mal interpretado ou ter suas dores, seus medos e traumas reduzidos à (quase) nada conseguem silenciar tua voz. Eu encontrei na escrita o ombro amigo que tanto busquei, a coragem que me fazia falta nos momentos em que mais precisava e o colo que tanto busquei para desabafar.
        Eu precisava escrever, mesmo sem saber, eu precisava falar, precisava gritar para o mundo o que só pertencia a mim e há muito tempo estava entalado na garganta me sufocando, aos poucos, aquilo que, lentamente, estava me consumindo, me ferindo, me reprimindo, me punindo diariamente. E eu sabia, eu permitia, não me dava conta dos prejuízos que essa negação me causaria, mas a conta chegou e veio cara demais, veio como um tsunami, como um furacão que destroem tudo por onde passam.
        Eu encontrei na escrita uma válvula de escape que me tira do mundo por alguns instantes que me deixa imerso em meus próprios pensamentos, me distrai e me mostra que eu, mesmo estando só, não preciso me sentir sozinho o tempo todo - ou quase o tempo todo. Mas escrever nem sempre foi fácil, me faltavam palavras, faltava coerência em meus pensamentos, tão aleatórios, tão desconexos e sem sentido algum.
        Olhando para trás, quando escrever era algo improvável ou, quem sabe, impensável, vejo que muito do que penso e sinto pude colocar para fora, pude mostrar ao mundo, pude me (re) conectar comigo mesmo, pude escutar a voz que falava dentro de mim e que à muito não ouvia - ou não queria ouvir, não me permitia ouvir.
        Nesses momentos de solitude, as vozes dos outros também se tornavam a minha, e é aí que mora o perigo, quando deixamos de escutar a voz que grita dentro de nós, estamos deixando que o mundo nos diga o que devemos ou precisamos fazer, onde devemos ir, que sentido tomar, estamos deixando que a voz dos outros indique a direção em que devemos seguir e, com isso, damos a liberdade para que as pessoas decidam o que é melhor para nós - ou o que elas acham que é o melhor para nós - e quando permitimos que o outro direcione nossa vida deixamos de vivê-la por inteiro e esse é o problema
        Mas a verdade é que eu ainda não sei escrever de fato e, talvez, nunca saberei, não sou um exímio escritor procurando palavras bonitas para escrever a simplicidade, para descrever a vida e tudo o que sinto, fazendo rimas, construindo parágrafos ou criando frases de efeito que ninguém entenderá, mas eu tento, eu invento, aos poucos me (re)invento com essas palavras que me (re)constroem a todo momento, o tempo inteiro.
...
        Pela fresta na cortina do quarto vejo que os primeiros raios se sol já despontam no horizonte, a chuva parou há horas e levou com ela o frio que arrepiava os finos pelos em minha nuca, mas eu continuo aqui, sozinho, inerte com a caneta e a velha agenda em mãos, olhando fixamente as linhas que me hipnotizaram a noite inteira. Irrequieto,  tento rabiscar algumas palavras, sem sucesso. Não insisto. Não mais. Desisto. Essa madrugada tentarei novamente.

"Perdi muito tempo pra aprender que não se guarda as palavras. Ou você as fala, as escrevem ou elas te sufocam".

- Clarice Lispector -

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- Um certo verão decidi que começaria a escrever, então cá estamos, o blog foi a melhor forma de colocar para fora tudo aquilo que ecoava em minha cabeça, de libertar meus pensamentos e desabafar com o mundo e, nessa "brincadeira", já são quase 10 anos escrevendo por aqui. Espero que goste do blog e não esquece de comentar e compartilhar com as pessoas que tu mais gosta. - Marcos