19/12/23

Essa história não é sobre o outono


    Paisagens noturnas me encantam mais, paisagens soturnas me inspiram mais, o vento gélido que sopra em meu rosto no meio dessa floresta selvagem de pensamentos me leva por direções incertas, as folhas secas que caem das árvores no outono me revelam sentimentos, pensamentos, sensações que nem mesmo os mais sábios conseguem entender - ou talvez não precise ser sábio para entendê-los. O céu nublado, as gotas de chuva que molham meu casaco no meio daquela estrada deserta, desconhecida, incerta,  a beira daquela floresta, revelam um chão cada vez mais tingindo por folhas amareladas sem vida, um céu de tons alaranjados e as árvores pintadas numa mistura de âmbar e mel.
    Os primeiros flocos de neve não devem demorar a chegar - pensei inquieto - o frio cada vez mais intenso já anuncia o que está por vir, os dias cada vez mais curtos têm pressa em se esconder da escuridão que os espreita, a sinfonia do vento que bate contra as folhas secas das árvores formam a trilha sonora dessa história,  dessa memória, e a névoa densa que cobre o lago, o rio e o mar, esconde de mim o que (ainda) não posso enxergar.
    Nessa história, muitas linhas foram escritas, muitas palavras foram apagadas de páginas em branco que precisavam ser preenchidas, muitas letras unidas, no entanto, vazias, buscando apenas um sentido, um significado que (ainda) não existe - ou talvez exista, mas não consigo entendê-las de fato. É um vazio de pessoas que me rodeiam por todos os lados, em todas as direções mas não  me enxergam, não me veem de fato, não me ouvem. Não  percebem aquilo que está escancarado em meu rosto, não  sentem as minhas dores, os meus medos nem os meus clamores, é como nessa floresta repleta de vida mas ao mesmo tempo tão vazia, tão deserta, tão só.
    Às vezes, tentar parece não  ser  o suficiente,  o máximo ainda parece ser pouco, e o medo teima em tomar a frente de algo que não lhe pertence, seguindo caminhos contrários e sem saída. Palavras sem sentido ainda são ditas, mesmo no silêncio, apenas aqui dentro, um sussurro, um ruído  quase inaudível, um pedido de socorro, quem sabe?
    Essa história não fala de outono, não, é sobre mim, mas também sobre nós, porque o seu significado vai muito além, é descrito numa subjetividade íntima e discreta - e muitas vezes incerta - porque há momentos na vida em que precisamos nos perder, mas é essencial nos (re)encontrarmos novamente. Uma vez alguém  me disse que na vida haverá pessoas que irão te perguntar se você  está bem, e outras que irão querer saber se você está bem, e isso são coisas bem diferentes.
    Essa história não é sobre o outono, é sobre recomeço, porque o outono não é o fim, as folhas precisam secar, as flores precisam murchar, os dias frios precisam ser sentidos, a chuva, assim como as lágrimas, precisam cair, um dia precisa terminar para que outro possa começar, porque a vida é  um ciclo, somos começo,  meio e fim, por isso, não podemos deixar que o medo nos paralise nem que as pessoas direcionem nossos passos nem nossos atos.
    As coisas são mesmo confusas dentro de nós - e é essa complexidade que nos forma, nos molda, nos torna diferentes, únicos e, por que não incompreendidos? - às vezes só queremos sair e procurar nossa paz, se iremos encontrá-la? aí já não está mais em nossas mãos. Nessa busca incessante não nos damos conta que somos substituíveis em todos os espaços, menos na nossa própria história e, muitas vezes, essa é a que menos cuidamos.

"Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim."
- Clarice Lispector -

Nenhum comentário:

Postar um comentário

- Um certo verão decidi que começaria a escrever, então cá estamos, o blog foi a melhor forma de colocar para fora tudo aquilo que ecoava em minha cabeça, de libertar meus pensamentos e desabafar com o mundo e, nessa "brincadeira", já são quase 10 anos escrevendo por aqui. Espero que goste do blog e não esquece de comentar e compartilhar com as pessoas que tu mais gosta. - Marcos