29/02/24

É hora de desacelerar


        O barulho estridente de um trovão no horizonte me fez estremecer - vai chover a qualquer momento, pensei ainda inquieto. Alguém apressado esbarra em mim e derrama um pouco do café - agora frio - que seguro em minha mão, o relógio marca 6h da tarde de uma sexta-feira qualquer, a calçada já molhada pelo sereno da noite que se aproxima, e eu estou aqui, bem no meio desse caos, dessa selva de pedra que teimo em chamar de lar.
        O asfalto quente com o atrito das rodas dos carros sobre ele, o céu nublado, as cores acinzentadas das ruas dessa cidade, as buzinas e sirenes estridentes que não param nem por um segundo, o vai e vem apressado de pessoas estranhas em todas as direções, sem tempo, sem ânimo, sem cor. Um verdadeiro pandemônio que se instaura todos os dias nesse lugar, a todo momento e sem hora para terminar, no lugar em que eu ainda teimo em chamar de lar.
...
        Eu havia me acostumado com aquele caos, não  porque eu queria, ou porque eu o amava, mas porque eu precisava. Precisava de muitas formas, de muitas maneiras que, às vezes, nem mesmo eu conseguia explicar de fato o porquê. Era um caos familiar, talvez, ou simplesmente eu achava que aquele era o meu lugar, onde eu sempre quis e sonhei estar - ledo engano.
        Ali eu já não me via mais, já não me reconhecia mais, as ruas eram estranhas para mim, as pessoas eram estranhas para mim, os lugares já não me encantavam mais, o colorido deu lugar ao preto e ao branco e eu fui perdendo a cor junto àquele lugar que tanto me seduziu, me enfeitiçou. O fascínio se desfez e eu me via só, sem tempo, com medo, tentando.
        A verdade é que estava na hora de desacelerar, estava na hora de parar tudo, respirar fundo, recalcular a rota para então voltar a seguir porque, às vezes,  a única coisa que precisamos é de um tempo para nós, sozinhos, longe de tudo e de todos, um lugar só nosso, um porto seguro, afinal, desacelerar o ritmo também faz parte da vida. Vez ou outra é necessário parar um pouco e escutar nossos pensamentos, nossa própria voz, aquela que vem de dentro e que, muitas vezes, nem ligamos, nem nos importamos.
        Estava na hora de tirar os pés do asfalto, do cimento molhado e coloca-los na areia, deixar o barulho estridente das buzinas e sirenes de lado e ouvir o som das ondas do mar, deixar o vai e vem apressado das pessoas dar lugar ao vai e vem de pássaros voando sobre o mar - as ondas que lavam, levam e trazem as areias da praia um dia já foram maresias, calmas e serenas em alto mar orientadas pela força dos ventos que sopram em todas as direções - pensei enquanto me sentava nas areias da praia frente ao mar sentindo o vento frio soprar em meu rosto naquela que parecia ser uma noite de luar.
        Estava anoitecendo e eu estava só. Num delírio de pensamentos desconexos e sem sentido. A música em meus fones era quase inaudível perto do barulho do mar - e isso pouco importava naquele momento, naquele lugar. Estava frio e eu sentia o vento gélido como cacos de vidro cortando meu rosto, bagunçando meu cabelo e fazendo-me encolher cada vez mais.
        Há anos que venho navegando no incerto, no que quero e no que finjo querer, no que sou e no que os outros fazem de mim - eu pensava com os olhos fixos no horizonte. Era hora de desacelerar, parar de correr atrás daquilo que nem eu mesmo sei, de tentar chegar no incerto, de buscar o impossível. Estava na hora de parar de existir e começar a viver, escrever uma nova história, colecionar momentos, cativar pessoas e ter a coragem de viver o agora.
        Coragem, às vezes, também é desapego e eu precisava ter a coragem de mudar tudo, de sair da minha zona de conforto e buscar o meu lugar, deletar tudo aquilo que não vale a pena e seguir aonde os bons ventos me levarem, seja num deserto de gente ou à beira-mar, porque é exatamente lá que eu preciso estar.


"Faz anos navego o incerto. Não há roteiros nem portos. Os mares são de enganos, e o prévio medo dos rochedos nos prende em falsas calmarias. As ilhas no horizonte, miragens verdes. Eu não queria nada além de olhar estrelas."
Caio Fernando Abreu.


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- Um certo verão decidi que começaria a escrever, então cá estamos, o blog foi a melhor forma de colocar para fora tudo aquilo que ecoava em minha cabeça, de libertar meus pensamentos e desabafar com o mundo e, nessa "brincadeira", já são quase 10 anos escrevendo por aqui. Espero que goste do blog e não esquece de comentar e compartilhar com as pessoas que tu mais gosta. - Marcos