06/03/25

Talvez


          Dizem que quando você chega na estação certa, entende porque perdeu o trem tantas vezes. Talvez não tenha sido por causa das chaves esquecidas sobre a mesa, ou por causa da TV que deixastes ligada ou, quem sabe, pelo telefone que tocou antes de sair. Talvez não tenha sido por causa do táxi que não parou, do semáforo que queimou, ou da moto que avançou a preferencial.
           E se a vida for, na verdade, um grande talvez? Talvez dê certo, talvez não, talvez esse seja o caminho certo, talvez seja o outro, talvez essa seja a pessoa ideal, talvez não. Mas, será que não é justamente esse talvez que move cada um de nós? Talvez não seja esse espaço vazio, essa ausência de certezas que faz a vida realmente valer a pena?

09/08/24

É sobre coragem, sobre liberdade


        Aqui, sozinha, sentido o alívio tomar conta de si como uma onda de prazer que lhe envolve e satisfaz, sentido o vento tocar seu rosto com uma ternura quase maternal e o sol aquecer seu corpo do frio intenso, Ela sentia a vida. Ela lembrava do quão longe chegou, e do quão difícil foi chegar lá. No alto, no topo, onde poucos conseguiram. Ela sabia que chegaria lá um dia - mesmo errando, mesmo pegando o caminho mais longo, o caminho mais difícil, mas ela sabia que chegaria lá. Ela experimentou o mundo e gostou. Aqui, sozinha, ela suspirava e sorria lembrando tudo o que teria perdido se tivesse dado ouvidos a quem não merecia.
        Um dia, quando Ela era apenas uma garota - indefesa, ingênua, vez ou outra curiosa sobre as coisas da vida - ela tinha expectativas sobre o mundo. Todos os dias antes de dormir ela fechava os olhos e imaginava como seria a vida lá fora, o que haveria depois da última parada? O que existiria após o fim da linha? Ora, ela estava bem aqui, porque aqui era o seu porto seguro, mas... ela não estava realmente bem porque ela sentia que aqui não era o seu lugar. Ela tinha aquela estranha sensação de não se sentir parte dali, Ela queria morar em alguns lugares, Ela queria morar em alguns momentos, Ela queria morar em algumas pessoas. Ela não queria criar raízes num lugar que não era seu. Ela queria sair do ninho, voar alto, voar longe, conhecer a vida, viver seus sonhos, fugir dos seus medos, sentir o mundo - não, Ela queria viver o mundo, porque o mundo era seu e de mais ninguém.

29/02/24

É hora de desacelerar


        O barulho estridente de um trovão no horizonte me fez estremecer - vai chover a qualquer momento, pensei ainda inquieto. Alguém apressado esbarra em mim e derrama um pouco do café - agora frio - que seguro em minha mão, o relógio marca 6h da tarde de uma sexta-feira qualquer, a calçada já molhada pelo sereno da noite que se aproxima, e eu estou aqui, bem no meio desse caos, dessa selva de pedra que teimo em chamar de lar.
        O asfalto quente com o atrito das rodas dos carros sobre ele, o céu nublado, as cores acinzentadas das ruas dessa cidade, as buzinas e sirenes estridentes que não param nem por um segundo, o vai e vem apressado de pessoas estranhas em todas as direções, sem tempo, sem ânimo, sem cor. Um verdadeiro pandemônio que se instaura todos os dias nesse lugar, a todo momento e sem hora para terminar, no lugar em que eu ainda teimo em chamar de lar.

09/01/24

Coloquei meus sentimentos no papel


        Mais uma madrugada em claro, acordado, sozinho, minha únicas companhias são o frio e a chuva que cai lá fora, uma caneta e uma velha agenda em mãos. Nessas linhas eu me perco, me entrego, me revelo, me descrevo por inteiro, sem medo, mas esse não sou eu - porque essas linhas (ainda) não me têm.
...
        Hoje, depois de muito desacreditar, percebi que escrever se tornou uma terapia. É difícil falar do que sinto porque às vezes nem mesmo eu consigo explicar ou tenho palavras para tal. É difícil me abrir com as pessoas e desabafar quando o medo de ser mal interpretado ou ter suas dores, seus medos e traumas reduzidos à (quase) nada conseguem silenciar tua voz. Eu encontrei na escrita o ombro amigo que tanto busquei, a coragem que me fazia falta nos momentos em que mais precisava e o colo que tanto busquei para desabafar.

19/12/23

Essa história não é sobre o outono


    Paisagens noturnas me encantam mais, paisagens soturnas me inspiram mais, o vento gélido que sopra em meu rosto no meio dessa floresta selvagem de pensamentos me leva por direções incertas, as folhas secas que caem das árvores no outono me revelam sentimentos, pensamentos, sensações que nem mesmo os mais sábios conseguem entender - ou talvez não precise ser sábio para entendê-los. O céu nublado, as gotas de chuva que molham meu casaco no meio daquela estrada deserta, desconhecida, incerta,  a beira daquela floresta, revelam um chão cada vez mais tingindo por folhas amareladas sem vida, um céu de tons alaranjados e as árvores pintadas numa mistura de âmbar e mel.
    Os primeiros flocos de neve não devem demorar a chegar - pensei inquieto - o frio cada vez mais intenso já anuncia o que está por vir, os dias cada vez mais curtos têm pressa em se esconder da escuridão que os espreita, a sinfonia do vento que bate contra as folhas secas das árvores formam a trilha sonora dessa história,  dessa memória, e a névoa densa que cobre o lago, o rio e o mar, esconde de mim o que (ainda) não posso enxergar.

10/11/23

Ânsia

        Num salto eu me levantei, em movimentos rápidos e sucessivos eu desmoronei. Eu estava ali, o olhar assustado, o coração acelerado, a mente a mil, mas não  parecia ser eu. Naqueles instantes nada parecia fazer sentido - e não fazia de fato. Ainda sobressaltado, a respiração cada vez mais pesada, a mente cada vez mais confusa e o corpo irrequieto eu travei uma batalha silenciosa comigo mesmo.
        O mundo parecia estar caindo, caindo bem na minha frente. Eu senti, mas não queria, sentir era insuportável, era inexplicável, era surreal. As voltas, idas e vindas já não surtiam efeito, aliás, nada do que eu fizesse parecia funcionar. Eu estava só - e estar só era a pior das sensações - tudo parecia girar mesmo sem se mover.
- Um certo verão decidi que começaria a escrever, então cá estamos, o blog foi a melhor forma de colocar para fora tudo aquilo que ecoava em minha cabeça, de libertar meus pensamentos e desabafar com o mundo e, nessa "brincadeira", já são quase 10 anos escrevendo por aqui. Espero que goste do blog e não esquece de comentar e compartilhar com as pessoas que tu mais gosta. - Marcos